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A história do Tarô: de baralho de jogo renascentista a espelho da alma

A história do Tarô: de baralho de jogo renascentista a espelho da alma
O tarô nasceu como jogo de cartas nos salões da Itália do século XV e só trezentos anos depois virou oráculo, pelas mãos de eruditos franceses, ocultistas e uma artista londrina genial. Da corte dos Visconti ao consultório de Jung, esta é a travessia completa das 78 cartas. E ela termina mais perto de você do que parece.

Antes de ser espelho, o tarô foi brinquedo. Há quase seis séculos, nos salões da Itália renascentista, ninguém abria as cartas em busca de respostas: abria em busca de vitória. O tarô nasceu jogo, viveu séculos como jogo, e só muito depois se tornou o que é hoje, um mapa de símbolos em que milhões de pessoas procuram clareza. Esta é a história dessa travessia: de mesa de banquete a mesa de leitura, de passatempo de duques a espelho da alma.

Um jogo nos salões do Renascimento

As cartas de jogar chegaram à Europa no fim do século XIV, muito provavelmente pelo comércio com o mundo islâmico: o registro europeu mais antigo conhecido aparece na Catalunha, em 1371. Bastaram algumas décadas para que os italianos, mestres em transformar tudo em arte, fizessem delas algo inédito. Entre 1440 e 1450, documentos de Milão, Ferrara, Florença e Bolonha mencionam as carte da trionfi, as cartas de triunfo: um baralho comum acrescido de uma série de cartas alegóricas, os triunfos, que venciam todas as outras na mesa. Era um jogo de vazas, parente distante do nosso truco e da nossa bisca, e não havia nele nada de adivinhação.

Os exemplares mais antigos que sobreviveram contam de onde esse jogo veio: do topo da sociedade. Os baralhos Visconti-Sforza, pintados em meados do século XV, foram encomendados por Filippo Maria Visconti, duque de Milão, e por seu sucessor e genro Francesco Sforza, e são atribuídos à oficina do pintor Bonifacio Bembo. São cartas de luxo, com fundo de ouro e retratos da própria família ducal, feitas para impressionar tanto quanto para jogar. Naquela época o baralho ainda se chamava trionfi: o nome tarocchi, que daria origem à palavra tarô, só entraria em cena décadas mais tarde. A estrutura, porém, já apontava para a que atravessaria os séculos: os triunfos alegóricos, que viriam a ser os 22 Arcanos Maiores, somados às 56 cartas de naipe, os futuros Arcanos Menores, compondo o baralho de 78 cartas.

A virada francesa: o jogo descobre o mistério

Por mais de trezentos anos o tarô seguiu sendo, essencialmente, um jogo. A virada aconteceu na França iluminista, e começou com um erudito de imaginação generosa. Em 1781, o pastor protestante e estudioso Antoine Court de Gébelin publicou, no oitavo volume de sua enciclopédia Le Monde primitif, uma tese fascinante e sem nenhuma prova: a de que os sacerdotes do antigo Egito teriam condensado sua sabedoria no lendário Livro de Thoth, e que esse livro teria sobrevivido aos séculos disfarçado de baralho de jogo. A história não se sustentava (os historiadores jamais encontraram evidência dessa origem egípcia), mas era boa demais para morrer. Quase da noite para o dia, um passatempo de salão ganhou aura de segredo milenar.

Quem transformou a tese em ofício foi um parisiense de espírito prático: Jean-Baptiste Alliette (1738 a 1791), que assinava Etteilla, o próprio sobrenome escrito de trás para a frente. Entre 1783 e 1785 ele publicou seu método de leitura das cartas, e é considerado o primeiro tarólogo profissional de que se tem notícia, vivendo do ofício de revelar caminhos no baralho. Por volta de 1789 foi além: lançou o primeiro baralho da história desenhado especialmente para a leitura, e não para o jogo. Muito do vocabulário que as mesas de tarô usam até hoje, das tiragens aos significados das cartas invertidas, começa com ele.

O século do ocultismo: Éliphas Lévi e a chave dos símbolos

O século XIX pegou essa fagulha e fez dela uma constelação. Em Paris, Alphonse Louis Constant, que escrevia sob o nome de Éliphas Lévi, publicou os dois volumes de Dogme et Rituel de la Haute Magie (1854 e 1856), cada um dividido em 22 capítulos, em paralelo deliberado com os 22 triunfos do tarô. Lévi propôs a correspondência que marcaria todo o ocultismo posterior: cada Arcano Maior ligado a uma das 22 letras do alfabeto hebraico e aos caminhos da Cabala. Nas suas mãos, o baralho deixou de ser curiosidade de origem duvidosa para virar sistema: uma gramática de símbolos em que cada carta é uma letra e cada tiragem, uma frase.

Esse pensamento atravessou o canal da Mancha. Quem traduziu Lévi para o inglês, em 1896, foi um estudioso meticuloso chamado Arthur Edward Waite. Guarde esse nome.

1909: a artista que deu rosto ao tarô moderno

Em Londres, Waite pertencia à Ordem Hermética da Aurora Dourada, sociedade dedicada aos estudos esotéricos que reunia poetas, artistas e pesquisadores. Foi nesse círculo que ele encontrou Pamela Colman Smith (1878 a 1951), ilustradora de talento raro, com passagens pelo teatro e pelo mundo editorial. Em 1909, Waite a convidou para criar um baralho completo, publicado naquele mesmo ano pela editora William Rider & Son, de Londres. Smith pintou as 78 cartas e realizou nelas uma revolução silenciosa, que explica por que esse baralho mudou tudo: pela primeira vez num baralho de grande alcance, também os Arcanos Menores ganharam cenas completas, com gente, paisagem e drama. Até então, um Cinco de Copas costumava ser apenas cinco taças desenhadas; sob o pincel de Pamela, virou uma figura enlutada diante de três taças derramadas, com duas ainda de pé às suas costas. Cada carta se tornou uma pequena história aberta, que qualquer pessoa pode ler como quem assiste a uma cena de teatro.

O resultado, conhecido como Rider-Waite, é até hoje o baralho mais usado do mundo e a base da imensa maioria dos baralhos modernos. Nas últimas décadas, os estudiosos passaram a chamá-lo de Rider-Waite-Smith, fazendo justiça à artista que deu rosto, cor e alma às 78 cenas. É esse o baralho que o Tarologuei utiliza em suas leituras: as imagens de 1909, hoje em domínio público, exatamente como Pamela as pintou.

O tarô encontra a psicologia

No século XX, o tarô ganhou um interlocutor inesperado: a psicologia. Em 1º de março de 1933, num seminário sobre imaginação ativa, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung comentou as cartas do tarô e as descreveu como ideias arquetípicas que se misturam ao fluxo do inconsciente. Para ele, eram "imagens psicológicas, símbolos com os quais se joga", assim como o inconsciente parece jogar com os próprios conteúdos. Não é difícil entender o encanto: os arquétipos que Jung estudava, o velho sábio, a grande mãe, o herói em travessia, a roda que gira, já estavam pintados nos triunfos havia quase quinhentos anos. A partir daí, o tarô passou a ser lido menos como sentença do destino e mais como espelho: um conjunto de imagens diante das quais cada pessoa reconhece a própria jornada.

O tarô chega ao Brasil

Por aqui, o tarô encontrou terreno fértil. O Brasil já tinha longa intimidade com as cartas: a leitura de baralho sempre circulou em feiras, salas de visita e mesas de cozinha, e é dessa tradição que vem o famoso baralho cigano. Vale desfazer uma confusão comum: baralho cigano e tarô são oráculos diferentes. O baralho cigano é o nome brasileiro do Petit Lenormand, um conjunto de 36 cartas de símbolos singelos (o coração, a âncora, a estrela), batizado em homenagem à célebre vidente francesa Marie Anne Lenormand (1772 a 1843) e descendente de um jogo de salão alemão de 1799, Das Spiel der Hoffnung, o Jogo da Esperança. O tarô, com seus 78 arcanos e cinco séculos de história, seguiu caminho próprio: entrou nas livrarias e nas bancas, nas rodas de estudo e nas conversas cotidianas, e hoje faz parte do vocabulário simbólico do país. Se existe um lugar do mundo onde perguntar às cartas é gesto familiar, esse lugar é o Brasil.

De jogo a espelho: o tarô hoje

Vista de uma vez, a jornada impressiona: um jogo de vazas nascido nos salões de Milão atravessou a imaginação egípcia dos franceses, a Cabala dos ocultistas, o pincel de uma artista londrina e o consultório dos psicólogos, até chegar às nossas mãos como ferramenta de autoconhecimento. Em cada época, o tarô foi aquilo de que cada época mais precisava: divertimento, segredo, sistema, arte, espelho. Talvez seja essa a sua verdadeira força: as 78 cartas pouco mudaram no essencial desde o Renascimento, mas nunca deixaram de ter algo novo a revelar. Quem abre uma tiragem hoje não pergunta às cartas o que o destino manda; pergunta a si mesmo o que ainda não teve coragem de ver. As cartas apenas acendem a luz, como quem aproxima uma vela de um quadro que sempre esteve na parede.

Se esta história despertou em você a vontade de sentar à mesa, o caminho é curto. No Tarologuei, as 78 cenas pintadas por Pamela Colman Smith esperam pela sua pergunta, com tarólogos prontos para conduzir a leitura no seu ritmo, da tiragem mais simples à Cruz Celta. Crie sua conta em tarologuei.com.br, receba 10 créditos de boas-vindas e descubra o que um espelho de cinco séculos tem a dizer sobre a sua jornada.

Fonte: Tarologuei