A Morte, A Torre e O Diabo: por que as três cartas mais temidas do tarot não dizem o que parece

Três cartas fazem a mesa silenciar antes mesmo de virarem por inteiro: A Morte, A Torre e O Diabo. O nome já chega antes da gravura, e o nome é o problema. Quem vê o esqueleto a cavalo lê morte; quem vê o raio lê desgraça; quem vê o bode de asas lê o mal. As três leituras são erradas do mesmo jeito: tratam o título como se fosse a carta. Este texto faz o caminho inverso. Para cada uma, primeiro a gravura, detalhe por detalhe, como Pamela Colman Smith a desenhou em 1909; depois o que Arthur Edward Waite escreveu sobre ela em 1911; e só então o que a carta responde quando aparece numa tiragem. No fim, o que fazer quando duas delas caem juntas, e por que uma leitura sem nenhuma das três é uma leitura sem contraste.
De onde vem o medo: três nomes mais velhos que o baralho
Os nomes não são invenção do baralho de 1909. Vêm do tarô de Marselha, o padrão francês dos séculos XVII e XVIII, e de lá trazem uma curiosidade cada: no Marselha, a carta XIII muitas vezes não tinha nome nenhum, só o número, e ficou conhecida entre praticantes como o arcano sem nome; a XVI se chamava La Maison Dieu, a Casa de Deus, um nome que já não explica sozinho o raio e a queda; e a XV era Le Diable, com duas figuras pequenas presas ao pedestal, um desenho que o Rider-Waite-Smith herdou quase inteiro.
Quando Waite encomendou o baralho a Pamela Colman Smith, os títulos vieram junto, mas as cenas foram redesenhadas, e é nas cenas que a leitura mora. O manual do baralho, o Pictorial Key to the Tarot, impresso pela William Rider & Son em 1910 e datado de 1911, faz uma coisa honesta e pouco lembrada: para cada carta, dá duas camadas. Uma lista curta de significados tradicionais, herdada de cartomantes anteriores, e uma descrição longa da gravura, com o que Waite entendia que ela dizia. As listas curtas são as que assustam; as descrições longas são as que ensinam. Vale ler as duas, e vale saber qual é qual.
A Morte (XIII): a gravura
Um esqueleto em armadura negra, montado num cavalo branco, atravessa a cena da esquerda para a direita. Não carrega foice. Carrega um estandarte preto com uma rosa branca de cinco pétalas, a rosa que Waite chama de mística. No chão, um rei caído, com a coroa fora da cabeça. Diante do cavalo, um bispo de mitra junta as mãos; uma jovem desvia o rosto; uma criança oferece flores. Ao fundo passa um rio, com um barco, e no horizonte, entre duas torres, o sol aparece na linha da terra. Quem olha a carta fora do baralho não sabe se ele nasce ou se põe; dentro da leitura, a resposta é quase sempre a mesma: nasce.
Waite escreveu que a carta não representa a morte física no sentido literal, e sim a passagem de um estado a outro, a mudança que renova o que estava parado. A lista tradicional que ele reproduz, porém, começa com fim e mortalidade, e é essa lista que atravessou o século nos folhetos. Na gravura, o que se vê não é o fim de uma pessoa: é o fim de um arranjo. O rei caiu, e o bispo, a moça e a criança continuam de pé, cada um reagindo de um jeito. Isso é o assunto da carta.
Numa tiragem, A Morte descreve o que está terminando, e o que insiste em não terminar. Na posição de Passado Recente, é o ciclo que fechou e ainda não foi assumido como fechado. No Presente, é o encerramento em curso. No Obstáculo, é o que precisa acabar para o assunto andar, e não acabou. Invertida, a carta muda de sinal: fala da resistência ao fim, do arranjo que já não funciona e é mantido por hábito ou por medo.
A Torre (XVI): a gravura
Uma torre no alto de um rochedo, estreita e cinzenta. Um raio a atinge de lado e arranca a coroa que lhe servia de topo: a coroa cai inteira, ainda dourada, separada do edifício. Chamas saem das janelas. Duas figuras despencam de cabeça para baixo, uma de manto azul, outra de manto vermelho, e ao redor delas flutuam gotas de luz em forma de chama, vinte e duas, o número dos arcanos maiores. O céu é preto. Não há chão visível abaixo das figuras, e a gravura não mostra onde elas caem.
Waite lê a torre como uma casa construída sobre uma premissa falsa, e o raio como a verdade que chega de fora. A coroa arrancada é o detalhe que organiza tudo: a torre não cai porque foi atingida, cai porque estava coroada sem ter fundação. A lista tradicional fala de calamidade, ruína e catástrofe inesperada, e é verdade que a carta descreve um acontecimento súbito. Mas a gravura acrescenta o que a lista omite: o que desaba é o que estava errado desde o começo, e depois do raio o céu está mais claro do que antes.
Numa tiragem, A Torre aponta a estrutura que não se sustenta: uma versão dos fatos, uma rotina, um acordo que só ficava de pé porque ninguém olhava para a base. No Futuro Próximo, é a queda que já está armada. Na Base, é o desabamento antigo sobre o qual o assunto foi reconstruído. Invertida, a Torre fala do desabamento contido, adiado ou já em curso em silêncio: a estrutura sabe que vai cair e ainda está de pé.
O Diabo (XV): a gravura
Uma figura com chifres de bode, asas de morcego e pés de ave, sentada num pedestal escuro, com um pentagrama invertido na testa e uma tocha voltada para baixo na mão esquerda. A mão direita está erguida, aberta, num gesto que Waite descreve como o oposto da bênção. Presas ao pedestal por correntes no pescoço, duas figuras humanas nuas, um homem e uma mulher, com pequenos chifres e caudas, a dela terminando em cacho de uvas, a dele em chama. É a mesma composição de Os Enamorados (VI): duas pessoas, uma figura maior entre elas, e o desenho é um espelho deliberado.
O detalhe que decide a carta está nas correntes: são largas. Os laços passam frouxos pelo pescoço das figuras, e Waite observa que elas poderiam retirá-los. Não retiram. É esse o assunto do Diabo: o que prende porque não se solta. A lista tradicional traz palavras pesadas, violência, força, fatalidade, e Waite acrescenta uma frase que muda a leitura inteira: aquilo que está determinado, mas não é por isso um mal. A carta não descreve uma força externa que aprisiona; descreve uma permanência escolhida e não assumida como escolha.
Numa tiragem, O Diabo nomeia a dependência, o hábito, a fixação, o vínculo que continua por inércia. No Obstáculo, é o apego que trava o assunto. No Ambiente, é a situação em que todos estão presos e ninguém puxa a corrente. Invertido, o Diabo é a corrente afrouxando: o vínculo que começa a ser visto como vínculo, e por isso pode ser desfeito.
Por que assustam, e por que isso é útil
As três cartas assustam porque nomeiam o que ninguém quer nomear numa consulta: o que acaba, o que cai e o que prende. Uma tiragem sem nenhuma delas tende a ser uma tiragem confortável e pouco informativa, cheia de taças e moedas e sem nenhum atrito. É o atrito que torna a leitura legível. Quando A Torre aparece, o consulente sabe onde a estrutura está fraca; quando A Morte aparece, sabe o que está terminando; quando O Diabo aparece, sabe o que está segurando por conta própria. Nenhuma das três diz o que fazer. As três dizem onde olhar.
E há uma regra simples para quando duas delas caem juntas. Morte e Torre na mesma tiragem descrevem um fim que não vai ser gradual. Torre e Diabo descrevem a estrutura que desaba porque estava presa ao que já não servia. Morte e Diabo descrevem o ciclo que só termina quando a corrente for retirada. Em nenhum dos três pares a leitura piora; ela fica mais específica.
Como estas cartas aparecem no Tarologuei
Cada carta do baralho tem a mesma chance de sair direita ou invertida, 50%, como num baralho de madeira, e as três deste texto não são exceção: A Morte invertida, A Torre invertida e O Diabo invertido têm arquivo próprio e leitura própria, descrita acima. A posição da tiragem manda no sentido: a mesma Torre no Passado Recente e no Futuro Próximo responde a perguntas diferentes.
A regra da casa vale aqui como em toda carta: a interpretação é objetiva e não muda de tarólogo para tarólogo. Dois dos vinte, olhando a mesma Torre na mesma posição, chegam à mesma conclusão. O que muda é como cada um fala dela, e é nas cartas difíceis que a diferença de voz mais se nota. Uma personalidade direta vai dizer onde a estrutura está fraca em duas frases; uma acolhedora vai chegar ao mesmo ponto por outro caminho.
Vale dizer com todas as letras, porque transparência faz parte do serviço: as leituras do Tarologuei são escritas por inteligência artificial a partir das cartas sorteadas, das posições e da pergunta de quem consulta, e existem para reflexão, autoconhecimento e entretenimento.
Se você quiser ver o que uma dessas três responde para a sua pergunta, o caminho é curto. Crie sua conta em tarologuei.com.br, receba 10 créditos de boas-vindas e escolha o formato do tamanho da sua questão. Se A Torre sair, olhe primeiro para a coroa: ela cai inteira, e o que cai inteiro não estava preso a nada.